10/10/2018 - 02h36

Diversidade das empresas tem evolução lenta

Fonte: Valor Econômico
 
O ambiente corporativo está longe de ser um retrato fiel da sociedade brasileira. O país tem uma população com 51,5% de mulheres, 52,9% de negros, 23,9% de pessoas com deficiência e estima-se que 10% são LGBT (sigla para designar o público composto por lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros). Apesar de a diversidade ser um tema mais discutido no Brasil, as empresas ainda patinam em suas políticas de diversidade e inclusão. As mulheres ocupam apenas 13,6% dos cargos de liderança nas 500 maiores empresas brasileiras. Nos conselhos de administração, elas são 7,9% dos assentos. A presença de negros ainda é ainda menor: 4,7% nos quadros executivos.
 
A diversidade foi um dos temas debatidos na Conferência Ethos 2018, que celebrou os 20 anos do Instituto Ethos, entidade criada para disseminar o conceito da responsabilidade social entre as empresas. O evento reuniu empresários, especialistas e líderes de organizações do terceiro setor nos dias 25 e 26 de setembro, em São Paulo. Combate à corrupção, direitos humanos, gestão sustentável e combate ao trabalho escravo fizeram parte dos debates, além do atual momento político e os desafios econômicos do país. “Promover a sustentabilidade e conduta ética nas empresas e na sociedade é, antes de tudo, uma forma de criar e manter as transformações que queremos conquistar daqui para frente”, disse Caio Magri, diretor-presidente do Instituto Ethos, na abertura do evento.
 
Influenciar as empresas na criação de um ambiente aberto às diferenças tem sido um percurso cheio de altos e baixos. Publicado em 2016, o estudo mais recente realizado pelo Instituto Ethos sobre diversidade nas empresas, “Perfil Social, Racial e de Gênero nas 500 Maiores Empresas do Brasil e suas Ações Afirmativas”, em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mostra avanços sutis na questão de gênero e na inclusão de pessoas com deficiência – nesse caso, estimulada por lei. A questão racial é sensível: embora o Brasil tenha caminhado em políticas públicas que permitiram que mais pessoas negras chegassem à universidade, o mesmo processo não se refletiu no mercado de trabalho. Os negros têm participação de 34,4% em todo o quadro de pessoal das empresas pesquisadas. As mulheres negras têm condição ainda mais desfavorável: ocupam 10% do nível funcional e no quadro executivo, sua presença é de 0,4%.
 
“As políticas públicas afirmativas avançaram no Brasil nos últimos anos, mas as empresas estão a reboque. Não avançaram no tema com a mesma velocidade”, afirma Lilia Schwarcz, professora titular do Departamento de Antropologia da USP. E as empresas vêm falhando em colocar em prática ações afirmativas: 88% não possuem políticas para promoção da igualdade de oportunidades entre negros e não negros no quadro de funcionários. Sem incentivos por parte das empresas, é difícil transpor as barreiras aos negros nas corporações.
 
De acordo com Valdirene Silva de Assis, procuradora do Ministério Público do Trabalho, as pessoas negras enfrentam três principais tipos de discriminação no ambiente de trabalho: a ocupacional (quando a pessoa negra é questionada sobre sua capacidade de realizar tarefas complexas); salarial (recebem salários menores) e estética (o fenótipo de pele escura e cabelos crespos é alvo de preconceito). “Além disso, denúncias que chegam ao Ministério Público deixam claro que o negro é vítima preferencial do assédio moral”, diz a procuradora.
 
O racismo explícito perseguiu a educadora Diva Guimarães ao longo de seus 78 anos de vida. Criança pobre do interior do Paraná, com apenas cinco anos foi levada por freiras missionárias para estudar em um colégio católico em São Paulo – em troca, trabalhou como serviçal e sofreu preconceito racial de professoras e colegas. Na vida adulta, graduou-se em educação física e fisioterapia, colecionando histórias de discriminação na vida universitária e durante o exercício das profissões. “Eu sempre era a única negra na escola e na universidade. O negro, o pobre, o indígena são invisíveis. Vivi isso na infância e como profissional.”
 
Chegou a duvidar da eficácia das políticas de cotas, que hoje defende tanto nas universidades quanto nas empresas. “É um direito, e não um favor.”
 
A presença feminina nas empresas está aumentando, mas também não espelha a sociedade brasileira, na qual as mulheres têm 7,5 anos de escolaridade a mais do que os homens em média, mas continuam ganhando menos. A pesquisa do Ethos mostrou ainda que elas são maioria nos cargos de estágio e aprendiz, mas perdem espaço nas posições de liderança. Entre as empresas, 28,2% mantém algum tipo de ação para promover a igualdade de oportunidades para homens e mulheres no quadro de funcionários.
 
“É preciso empenho para aumentar a presença feminina não só nas lideranças, cargos gerenciais ou operacionais, mas também nas empresas que fazem parte da cadeia de fornecedores”, afirma Margareth Goldenberg, gestora executiva do Movimento Mulheres 360, organização que apoia empresas a colocar em prática a equidade de gênero no ambiente corporativo. Um termômetro de que o tema vem ganhando relevância é a participação das empresas: o movimento foi criado por oito empresas, entre elas Natura, Nestlé e Walmart, e hoje contabiliza 46 membros.
 
A multinacional de TI Microsoft é uma das associadas, e tem feito esforços, tanto em nível global quanto local, para aumentar a representatividade feminina em seus quadros e equiparar salários. Em 2016, assinou um compromisso global de equidade salarial para entre gêneros e incorporou metas de diversidade na remuneração variável de executivos. Um dos maiores desafios é a distribuição desigual de mulheres nas carreiras ligadas à tecnologia, o que perpetua estereótipos como “carreiras de menino e menina”.
 
Em média, mulheres optam pela área de desenvolvimento de software com 73% menos frequência do que os homens. “Uma velha justificativa é a de que não chegam bons currículos de mulheres. Mas se esses currículos não estão chegando, temos que ir buscá-los”, afirmou Priscyla Laham, vice-presidente de vendas da Microsoft. “O papel de uma grande empresa de tecnologia é ser protagonista para mudança desse discurso”, diz.
 
Estimular as empresas a romper o preconceito e gerar oportunidades de trabalho para o grupo LGBT é a causa de outra iniciativa, o Fórum de Empresas e Direitos LGBT, que reúne 60 companhias na troca de experiências sobre o tema desde 2013. Segundo o Instituto Ethos, apenas 19,7% das empresas brasileiras possuem iniciativas para promover a igualdade de oportunidades para o público LGBT, embora 51,3% afirmam que concedem benefícios iguais para casais do mesmo sexo. “O grupo busca um jeito tangível de trabalhar o tema na gestão das empresas e combater o preconceito nos ambientes de trabalho”, diz JP Polo, secretário-adjunto da organização.
 
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